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Como é viajar em uma maria-fumaça de 1884 no Paraná

31 de August de 2026 8 leituras
Como é viajar em uma maria-fumaça de 1884 no Paraná

Cabelos ao vento, quepe na cabeça, saxofone tocando dentro do vagão e as fagulhas da locomotiva voando para perto do meu rosto. Fechei os olhos por alguns segundos, ri sozinha e pensei que aquilo definitivamente não parecia um passeio de trem no Paraná em pleno 2026.

E fez total sentido não parecer. A maria-fumaça que puxava o vagão tinha mais de 140 anos.

Nomeada Trem Caiçara, a locomotiva de 1884 percorre 16 km entre Antonina e Morretes, no litoral do Paraná, pela antiga Estrada de Ferro Dona Isabel. É uma viagem curta, de pouco mais de 1h, mas com detalhes que fazem a gente esquecer em que século estamos.

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Morretes já é a velha conhecida de quem faz o passeio de trem de Curitiba pela Serra do Mar. Eu mesma já contei aqui como é essa viagem, que passa por túneis, pontes, paredões e alguns dos cenários mais impressionantes da ferrovia paranaense. No entanto, o Trem Caiçara é outra história, e bota história nisso.

Não tem os grandes cânions nem os viadutos vertiginosos do percurso que vem da capital. Em compensação, os vagões preservam a aparência dos antigos carros de passageiros e o som dos trilhos acompanha a viagem inteira.

O embarque em Antonina

A viagem pode ser feita tanto a partir de Antonina quanto de Morretes. Em Antonina, a partida ocorre às 14h; no sentido inverso, às 16h.

Eu comecei o passeio por Antonina. Cheguei à Estação Ferroviária sob o sol forte e me deparei com uma construção antiga, de tom amarelo-alaranjado, restaurada em 2019 pelo Iphan.

Por dentro, a estação é simples, mas guarda fotografias e informações sobre a história da ferrovia. No centro, havia uma bancada recheada de panfletos com detalhes turísticos do Paraná.

Mas a atração principal estava do outro lado da plataforma. Preta, com detalhes vermelhos e uma frente circular, a locomotiva parecia ter saído de um filme. Alguns talvez se lembrem de Harry Potter; outros, de Assassinato no Expresso Oriente. O que é inegável para todos é o charme cinematográfico da maria-fumaça.

O trem de 1884

Antes da partida, o chefe de trem, responsável por acompanhar os passageiros durante o percurso, reuniu o grupo e contou um pouco da história ferroviária.

A locomotiva que faz a viagem é a Mogul nº 11, fabricada pela Baldwin Locomotive Works, nos Estados Unidos, e adquirida pelo Paraná para a construção da ferrovia Paranaguá-Curitiba. Ela entrou em operação ainda na fase final das obras da estrada de ferro, inaugurada em 1885, e passou décadas transportando passageiros e cargas pelos trilhos do estado, até deixar de circular na década de 1950.

Após 30 anos de inatividade, o processo de restauração da locomotiva teve início em 2018, conduzido pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF). Foi assim que, em 2020, nasceu o atual Trem Caiçara, entre Antonina e Morretes.

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Os carros de passageiros são simples. São dois vagões com bancos almofadados e um terceiro com assentos de madeira. Não há escolha de categoria ou de lugar na hora da reserva: os assentos são definidos automaticamente, conforme a ordem de compra. O vagão com bancos de madeira só é utilizado quando os dois vagões com lugares almofadados estão lotados. Ao chegar, basta sentar e esperar o trem partir.

Minha janela ficou aberta durante todo o trajeto e, de vez em quando, entravam fumaça e algumas fagulhas. Eu me divertia fechando os olhos quando alguma brasa chegava mais perto e me afastando dos galhos para, logo depois, colocar a cabeça para fora novamente. O passeio desperta um tipo de nostalgia engraçada, aquele famoso “saudades do que não vivi”.

Até o bilhete participa da brincadeira nostálgica. Embora a compra seja feita pela internet, recebemos uma passagem física, e, durante a viagem, o chefe de trem vai furando os bilhetes, como se fazia de antanho. No fim, aquele pedaço de papel vira uma recordação.

Tem ainda uma mala antiga no vagão para quem quiser fotografar. O chefe de trem aproveita o adereço para contar que ali caberia um milhão de dólares em notas de cem. A história arranca risadas dos passageiros e rende algumas fotos antes da partida.

Quando o trem começa a andar

O apito toca e a maria-fumaça começa a se deslocar devagar. Não demora para as casas de Antonina aparecerem na janela em meio a mata. O barulho do trem chama atenção de quem está na rua e é curioso ver como algumas pessoas param o que estão fazendo para acenar. Imagino que, para quem mora ali, a cena já faça parte da rotina. Ainda assim, a graça de ver um trem histórico passando parece ser eterna.

Em alguns trechos, há placas pedindo para o maquinista buzinar. Ele responde, e aquele apito clássico ecoa pela vizinhança enquanto a fumaça toma conta da frente da locomotiva.

Aos poucos, Antonina vai ficando para trás e o cenário muda. Entram em cena as bananeiras, as pontes, os rios, os manguezais e a Mata Atlântica. Não é uma paisagem de montanhas, mas sim uma natureza comezinha, que vai se mostrando conforme o trem avança. A fumaça da locomotiva, porém, pode atrapalhar as fotos, deixando as imagens um pouco nubladas.

Em um dos trechos, avistei, do outro lado da ponte, o Hangar, em Morretes, onde um avião faz parte da decoração de um espaço feito para o happy hour. Ali, um grupo animado nos filmava e acenava.

A paisagem muda, mas os trilhos continuam contando uma história antiga. O trecho percorrido pelo Trem Caiçara faz parte da Estrada de Ferro Dona Isabel, inaugurada em 1892. O ramal foi construído para conectar Antonina à rede ferroviária, numa época em que a cidade tinha forte importância econômica por causa de seu porto e das indústrias Matarazzo. Hoje, Antonina tem um ritmo bem mais sossegado, e aquele ar clássico de cidade pequena.

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O trem avança em baixa velocidade e, em alguns momentos, precisa parar ou reduzir o ritmo por questões operacionais. Na minha vez, ficamos uns 20 minutos parados, esperando o trem Curitiba-Morretes passar.

Atrativos dentro do trem

A viagem ganhou trilha sonora com as notas do saxofone soando pelo vagão. Aos poucos, quem estava sentado começou a cantar, outros levantaram para dançar e, quando tocaram “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa, já não importava muito se alguém sabia a letra ou cantava afinado.

Enquanto a paisagem passa pela janela, os passageiros também vão conhecendo um pouco mais da região. Uma pasta cheia de fotografias e recortes de jornais antigos conta histórias de Antonina, Morretes e da própria ferrovia. Além das fotos, objetos como os pinos usados nos trilhos ajudam a dar forma às histórias contadas durante o percurso.

O passeio também reserva pequenas surpresas. Tive a oportunidade de degustar uma cachaça de banana, servida em dose pequena num copinho de plástico. Deliciosa, ela desceu rasgando e deixou um gosto adocicado na boca.

No meu vagão havia apenas adultos, mas, quando há crianças na maria-fumaça, costumam ser distribuídos trenzinhos de brinquedo para acompanhá-las durante o trajeto.

E ainda tem o momento do quepe. O chapéu vermelho, com “Chefe de Trem” escrito na frente, vai passando pelos passageiros e, quando chegou a minha vez, não pensei duas vezes. Coloquei na cabeça e fui para perto da janela. Do lado de fora, a paisagem seguia tranquila, tomada pelo verde saturado da natureza. Morretes se aproximava.

Chegada a Morretes

Quando o trem chega à Estação Ferroviária de Morretes, chega também a hora de desembarcar e voltar ao ritmo da cidade. Mas não é preciso sair da estação para continuar conhecendo a história da ferrovia. Ali funciona a Casa da Memória, que reúne documentos, fotografias e objetos ligados à história de Morretes e dos trilhos que cortam a região.

Depois, dá para seguir a pé até o centro, entre restaurantes, casarões históricos e lojinhas. É uma boa oportunidade para experimentar o barreado, prato típico da região.

Caso seja necessário retornar a Antonina, é possível adquirir, junto com o ingresso do trem, o transporte rodoviário de volta. A saída costuma acontecer pouco depois da chegada da maria fumaça.

Como fazer o passeio de Maria Fumaça

O Trem Caiçara opera aos sábados, domingos e feriados, com saídas em ambos os sentidos. De Antonina para Morretes, o embarque acontece às 14h; no sentido contrário, a partida é às 16h. A recomendação é chegar à estação cerca de 30 minutos antes.

A saída em Antonina acontece na Estação Ferroviária de Antonina, na Rua Uruguai, e a estação de Morretes fica na Rua Padre Saviniano, 768.

O trem comporta 160 passageiros e a viagem dura aproximadamente 1h15. Os ingressos custam R$ 150 (inteira) e R$ 135 (meia), e crianças de até 5 anos não pagam. Quando incluso, o retorno rodoviário, feito de ônibus ou van, acrescenta R$ 23 ao valor. É possível adquirir o bilhete no site oficial.

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Rodapé editorial

Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de viagemeturismo.abril.com.br.

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